Os fundamentos teóricos do método biográfico (sempre seguindo a proposta de Françoise Digneffe em Albarello et al (2005):
- considerar os sujeitos das histórias de vida como «actores sociais», isto é, os sujeitos não são seres passivos aos quais a realidade social se lhes impõe coerciva e de modo determinista, sendo apenas indivíduos que se comportam socialmente adoptando esquemas de estímulo-reacção;
- «trata-se de captar as vivências sociais, o sujeito nas suas práticas, na maneira como negoceia as condições sociais que lhe são particulares» (p. 206).
- não se trata de considerar a vida daqueles que enfrentam problemas de um ponto de vista moral, como "heróis" ou como "coitadinhos", admirando o seu labor ou tendo pena daquilo que sofreram, de olhar uma vida traçada à partida de consequências irreversíveis; mas sim, de analisar a realidade de quem enfrentou situações e teve de fazer escolhas, sem juízos de valor por parte do investigador, tentando discernir as actividades daqueles que levam a sua existência quotidiana nas suas práticas, nas suas expectativas, em síntese, na relação prática que estes estabelecem com a realidade;
- «é necessário deixar que cada um relate como vive na sua especificidade esse problema e como exprime o geral através do particular» (212). O método biográfico permite, desta forma:
- «compreender de que modo a conduta é continuamente remodelada, de modo a ter em conta as expectativas dos outros» (208);
- «captar o que escapa às estatísticas, às regularidades objectivas dominantes, aos determinismos macrosociológicos» (209);
- «reconhecer um valor sociológico no saber individual» (210); as regras de experiência dos actores sociais.
Para a constituição da amostra devem-se respeitar a regra de ontemplar relatos o mais diversificados possíveis, para compreender vários tipos de trajectórias sociais.
A entrevista é a técnica biográfica por excelência (mas não única), privilegiando-se os modos de intervenção não directivos e semi-directivos. Numa entrevista de história de vida, o relato afasta-se de uma descrição ou de uma inquirição para assumir os contornos de uma narração, muitas das vezes, aquando do acto de narrar, com efeitos surpreendentes para o próprio narrador, o qual se confronta auto-reflexivamente com o seu próprio relato de forma inovadora. Assim:
- é desejável que a pessoa que é entrevistada «seja agarrado pelo desejo de contar e que seja ele a apropriar-se da condução da entrevista» (216);
- «a pessoa entrevistada conduz o seu próprio relato, sabe do que fala, e o investigador está lá para escutar, aprender e, se necessário, recordar o tema de conversa que foi acordado» (216);
- a entrevista deve decorrer de modo amigável e no local a designar pelo próprio entrevistado.
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